Paróquias de Alcácer do Sal
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TEXTO BASE PROPOSTA PELA DIOCESE
Após dois anos dedicados à reflexão da Misericórdia de Deus [Vive a alegria que nasce da Misericórdia (2015) e Sede Misericordiosos como o vosso Pai (2016)], e com a publicação da Exortação Apostólica “A Alegria do Amor”, sobre o Amor na família, fruto de um caminho que durou cerca de três anos, iremos reflectir, no próximo ano pastoral, sobre a importância da Transmissão da Fé na e para a Família: “o exercício de transmitir aos filhos a fé, no sentido de facilitar a sua expressão e crescimento, permite que a família se torne evangelizadora e, espontaneamente, comece a transmiti-la a todos os que se aproximam dela e mesmo fora do próprio ambiente familiar” [Papa Francisco, Amoris Laetitia, 289].
Desde há várias décadas que, no âmbito dos grande desafios e das grandes problemáticas pastorais, a Família tem surgido como uma das maiores preocupações da Igreja. Por este motivo, muito se tem reflectido e se tem feito ao nível do pensar, do dialogar e do agir ao nível de toda a Igreja, bem como na especificidade das dioceses, das paróquias e dos movimentos.
Os desafios colocados à Família nos tempos actuais são inúmeros, e, com facilidade, se poderá cair numa mentalidade ou numa resposta dominada pelas lamentações ou pelo sentimento de impotência. No entanto, no meio do que parecem ser as imensas sombras que ameaçam ou dominam a instituição familiar, urge uma determinação em identificar a realidade em todas as suas dimensões, salientar o que são os desafios positivos do que nos surge e, com renovado entusiasmo, descobrir por onde é que o Espírito nos conduz
Uma das dificuldades que condiciona a reflexão eclesial no que diz respeito à Família é a amplitude dos problemas e dos desafios que, em muitos casos, esgotam o diálogo e congestionam a reflexão por tudo parecer demasiado amplo e profundo. No entanto, diante de tantos anos de reflexão e consideração daquilo que parece ser uma problemática, será importante não esgotar a motivação pela dimensão do problema, mas delinear uma “constante e metódica evangelização” [Discurso do Papa Francisco aos Bispos portugueses na Visita Ad Limina, 07/09/2015] a partir do que, antes, referíamos como desafios positivos.
A alteração do modus vivendi das famílias teve, como base, um conjunto de factores. No entanto, não se pode negar que o actual dinamismo das famílias partiu de estruturas de aprendizagem que ditaram uma nova forma de pensar, uma nova forma de viver, e um novo sistema de referências socioculturais. O que é pedido à Igreja, nos tempos actuais, é que o ponto de partida seja a arte de ensinar e, consequentemente, se caminhe na arte de amar.
Por este motivo, um dos desafios positivos que parecem surgir no horizonte da pastoral da Igreja e das próprias famílias é a Transmissão da Fé. Obviamente que, falar da transmissão da Fé, parece-nos retomar o que sempre assumimos. No entanto, será necessário rever o que se faz, o que se pretende alcançar e como fazer para atingir os objectivos definidos.
1. A Família na Transmissão da Fé
O anúncio do Evangelho faz parte de um dos maiores legados que foram conferidos por Cristo à Igreja. No entanto, sem obedecer a qualquer critério formalizado, a Igreja vive da própria dinâmica de Cristo, fazendo experiência das realidades da fé a partir das realidades concretas da Humanidade. Neste sentido, a Família forma o lugar em que, por antonomásia, se experimenta e vive a fé. Por este motivo, o sagrado Concílio Vaticano II referia-se à família como “igreja doméstica, [onde] devem os pais, pela palavra e pelo exemplo, ser para os filhos os primeiros arautos da fé” [LG 11], tendo “por dever ser um espaço onde o Evangelho é transmitido e donde o Evangelho irradia” (EN 71). No entanto, recorrendo ainda às palavras do Papa Paulo VI, na experiência da família nem só os pais são evangelizadores, pois estes “não somente comunicam aos filhos o Evangelho, mas podem receber deles o mesmo Evangelho profundamente vivido” [ibidem].
2. A Fé no coração da Família
A multiplicidade e a velocidade de acções e compromissos que caracterizam a vida hodierna tem impresso um novo ritmo na vida das famílias. Se, por um lado, é sabido que a vida moderna vive à luz de novas velocidades e dinamismos, também é sabido, por outro lado, que o ritmo assumido por muitos no seu seio familiar os leva a um constante estado de ansiedade e de saturação.
Perante esta dificuldade, “a família deve continuar a ser lugar onde se ensina a perceber as razões e a beleza da fé, a rezar e a servir o próximo. Isto começa no baptismo, onde – como dizia Santo Agostinho – as mães que levam os seus filhos «cooperam no parto santo»” [AL 287]. Neste âmbito, tal como o dinamismo da Catequese deve ser reorientado para a centralidade do encontro pessoal com Cristo, também o cuidado para com a Família tem de ser em ordem a um encontro familiar com Cristo. Uma catequese apenas assente na evangelização dos filhos sem cuidar os pais arrisca-se a gorar facilmente, pois “é fundamental que os filhos vejam de maneira concreta que, para os seus pais, a oração é realmente importante. Por isso, os momentos de oração em família e as expressões da piedade popular podem ter mais força evangelizadora do que todas as catequeses e todos os discursos” [AL 288]. Simultaneamente, não se pode esperar que os novos casais consigam, por si só, contribuir totalmente na evangelização da sua prol, já que eles mesmos necessitam, em muitos casos, de renovar o seu olhar sobre a fé. É aqui que, como Igreja, se buscam as respostas na lógica de que, a Igreja, sendo Mãe, também se assume como Família das famílias.
3. O Dinamismo da transmissão da Fé
O esforço feito pelas paróquias no âmbito da catequese é motivo de muita alegria e de elevado reconhecimento. Na verdade, à conta de muita dedicação e profundo amor a Deus, as nossas paróquias vivem com um importante impulso nascido do esforço conjunto dos sacerdotes e catequistas que procuram, de muitas formas, levar as nossas crianças, jovens e adultos a descobrir a beleza da Fé. No entanto, também a todos preocupa a dificuldade em levar os catequizandos a uma descoberta real de Cristo, a uma experiência de fé cativante e apaixonada que os dote do dom da perseverança. Também a este nível, nas duas últimas visitas Ad Limina que os bispos fizeram, a advertência feita pelos Papas Bento XVI e Papa Francisco iam no sentido de repensar a pastoral e os próprios métodos com que procuramos transmitir o Evangelho de Cristo à sociedade portuguesa.
Olhando para a realidade concreta da Arquidiocese de Évora, será importante ver o imenso mérito de quem, até ao momento, procura assumir a missão catequética na sua paróquia, mesmo que lesando o seu tempo e os seus gostos. No entanto, também é sabido que esse mérito pode ser fortalecido por uma maior rentabilização do esforço empreendido.
Fixando a atenção na advertência feita pelo Papa Francisco aos bispos portugueses, ao catequista e à comunidade inteira é pedido para passar do modelo escolar ao catecumenal [Papa Francisco aos Bispos portugueses na Visita Ad Limina, 07/09/2015]. Deste modo, é necessário romper com um modus operandi que configure a catequese a uma disciplina escolar, a uma actividade extracurricular ou a um programa de ocupação de tempo-livre. Para isso, de um intelectualismo da fé, é necessário encontrar o justo equilíbrio que permita conhecer a Cristo mas, simultaneamente, estabelecer com Ele um profundo encontro pessoal.
A necessária renovação que urge na Catequese pode parecer difícil e inatingível. No entanto, facilmente se poderá perceber a sua rentabilidade quando, de diferentes formas, o pároco e o catequista sentirem que se desvincularam de uma simples função de animador espiritual, para assumirem aquilo para que foram chamados: serem testemunhas de Cristo. De uma catequese testemunhante nasce um dinamismo novo, quer em benefício de quem procura conhecer o Senhor, quer em beneficio de quem, generosamente, procura dar a conhecer o Senhor.
A importância do testemunho “é central na obra educativa, e especialmente na educação na fé, que é o cume da formação da pessoa e seu horizonte mais adequado: converte-se em ponto de referência precisamente na medida em que sabe dar razão da esperança que fundamenta sua vida., na medida em que está envolvido pessoalmente com a verdade que propõe. O testemunho, por outro lado, não se assinala a si mesmo, mas assinala a algo, ou melhor, a Alguém maior que ele, com o qual se encontrou e de quem experimentou uma bondade confiável. Deste modo, todo o educador e testemunho encontra seu modelo insuperável em Jesus Cristo, o grande testemunho do Pai, que não dizia nada por si mesmo, mas que falava tal e como o Pai o havia ensinado” [Bento XVI, na abertura do Congresso Eclesial da Diocese de Roma sobre «Família e comunidade cristã: formação da pessoa e transmissão da fé»].
Neste dinamismo de encontro, de descoberta, de anúncio e de caminho, a transmissão da fé deve estar associada, sobretudo, ao testemunho vivo de uma comunidade cristã. Testemunho que é intrínseco à sua identidade e à tradição da fé. Fé que é um acto pessoal, mas nunca isolado, como nos diz o Catecismo da Igreja Católica no n.º 166: “A fé é um acto pessoal: resposta livre do homem à proposta de Deus que Se revela. Mas não é um acto isolado. Ninguém acredita só, como ninguém vive só. Ninguém se deu a fé a si mesmo, como ninguém a si mesmo deu a vida. Foi de outrem que o cristão recebeu a fé; a outrem a deve transmitir. O nosso amor a Jesus e aos homens impele-nos a falar aos outros da nossa fé. Cada crente é, assim, um elo na cadeia dos crentes. Não posso crer sem ser motivado pela fé dos outros, e pela minha fé contribuo também para guiar os outros na fé”.
Assim, percebemos que é todo um povo a caminho e não apenas alguns ou um pequeno grupo dentro da comunidade. A comunidade é a portadora, o sujeito activo da transmissão continuada da fé. Só juntamente com outros crentes, em dinamismo comunitário de complementaridade e de apoio mútuos, é que o cristão pode anunciar que está próximo o Reino de Deus; só no seu conjunto – através da multiplicidade imensa das histórias de vida de cada crente, através de múltiplos carismas, serviços e ministérios -, é que a Igreja pode dar um testemunho da fé em Jesus.
A catequese conduz à integração e à participação activa na comunidade cristã que celebra a presença e a acção de Deus nos sacramentos, sobretudo na Eucaristia, vértice e fonte de vida cristã. A liturgia é, outrossim, uma fonte de evangelização, enquanto diz (narra) o essencial da fé ao longo do ano litúrgico e introduz no mistério celebrado. A catequese deve levar a viver na celebração litúrgica e na oração o que se aprende sobre a vida cristã. A comunidade cristã é o sujeito, o ambiente e a meta da catequese. Na verdade, a vida cristã é um facto comunitário, recebe-se, aprende-se e vive-se na Igreja, mistério de comunhão. A comunidade cristã apresenta, deste modo, um testemunho vivido da fé no qual a catequese encontra a sua base de apoio.
4. Responsáveis na Transmissão da Fé
Transmitir ou comunicar a fé é responsabilidade própria de todos os crentes de qualquer idade ou condição. Podemos afirmar que se trata de uma corresponsabilidade entre todos os pastores da igreja, pais de famílias, professores, animadores, etc... Todo aquele que faz da fé o centro da sua vida não pode senão sentir o desejo de compartilhar com os demais aquilo que reconhece como o seu verdadeiro tesouro. Somos todos responsáveis na transmissão da fé, tanto a nível pessoal como comunitário, ainda que não estejamos todos chamados a desempenhar as mesmas tarefas. Os leigos têm um papel especial e insubstituível na comunicação da fé na família e nos mais diversificados ambientes.
Temos de ter presente que na sociedade actual é fundamental para a transmissão da fé a presença activa e testemunhal de comunidades cristãs renovadas, espiritualmente vigorosas, unidas e conscientes do tesouro que possuem e da missão que lhes pertence.
A transmissão da fé pede-nos que antes de programar iniciativas concretas, faz falta promover uma espiritualidade de comunhão, propondo-a como princípio educativo em todos os lugares onde se forma o homem e o cristão, onde se educam os ministros do altar, as pessoas consagradas e os agentes pastorais, onde se encontram as famílias e as comunidades.
5. Objectivos específicos da Diocese
. Apostar numa maior exigência e empenhamento na preparação do matrimónio no caminho da iniciação cristã, ajudando os jovens a descobrir o valor, a beleza e a riqueza do matrimónio cristão;
. Congregar, consciencializar e envolver as famílias no processo da transmissão da fé.
. Acolher as pessoas de acordo com a sua situação de fé, criando oportunidades de caminho para a plenitude do matrimónio e da família;
. Acompanhar e iluminar as famílias na sua experiência de doença, de sofrimento e de luto;
. Valorizar os idosos como pilares da estrutura e dos valores familiares;
. Proporcionar momentos celebrativos nas famílias e nas paróquias
. Realizar umas jornadas sobre a Família;
