Paróquias de Alcácer do Sal
1. Um Deus misericordioso
Deus, não é um Deus apático, distante e frio mas um Deus próximo, amigo, capaz de se compadecer do homem, porque Deus é amor. É o amor que o faz sair de si mesmo e ir ao encontro do homem que, desde as origens, experimenta a tentação de se refugiar em si mesmo e de buscar sozinho o caminho da felicidade e da realização pessoal. Na origem do amor está a determinação permanente em não abandonar o homem à sua sorte nem deixar de o amar, apesar do seu pecado. […] O amor revela-se ativo e dinâmico no exercício da misericórdia, porque esta é a manifestação da perfeição de Deus.
Um Deus amor, que tem a misericórdia como a sua principal característica, é um Deus que se inclina lá do alto, vê a aflição do povo e escuta o seu clamor. É um Deus que impõe a si mesmo, livre e gratuitamente, a obrigação de cuidar do homem e de o atender nas suas necessidades, mostrando ser um Deus fiel, em quem se pode confiar. A Sua misericórdia não tem limites, não se esgota nunca e não se reduz ao perdão, mas acompanha o homem em todas as suas fragilidades. Deus vai ao encontro do pecador e oferece-lhe uma e outra oportunidade; é o protector e guardião dos pobres, sente compaixão dos enfermos, dos famintos, dos cegos, e dos que se veem sem direitos e identifica-se com eles.
A misericórdia não é uma esmola que Deus oferece, mas a disponibilidade para conceder a cada homem um lugar no seu coração; não é uma mera compaixão pelo sofrimento alheio, mas uma identificação, um deixar-se afetar pelo sofrimento, um assumir o sofrimento do outro como próprio até morrer por amor. É um dar-se a si mesmo em forma de amor que gera vida, restabelece a relação destruída e recria o outro na alegria original. Não é apenas um bom sentimento perante aquele que padece, é um amor que gera proximidade, conhecimento e compromisso.
O Coração misericordioso de Deus impele-o ao encontro. O Senhor interessa-se pela situação real e gera compromisso de libertação.
A misericórdia de Deus transforma-se em gestos concretos: liberta e cura, sacia, perdoa, enche de alegria, abraça, beija, levanta, protege, salva... mas, também contém em si mesma uma pergunta provocatória que ressoa permanentemente no coração dos crentes e no interior da Igreja: “Onde está o teu irmão?” (Gn 4, 9).
2. A misericórdia divina no Antigo Testamento
Toda a Bíblia é uma revelação permanente da misericórdia de Deus. A história de Israel está toda perpassada pela manifestação de Deus como Deus de misericórdia ao ponto de se transformar numa história de salvação. Deus não abandona o homem. Interessa-se por ele e quer que viva no seu amor.
Rico em misericórdia é o Pai de Israel, seu povo, com quem fez uma aliança (Dt 14,12) e a quem concedeu a paternidade. O Êxodo, caminho que conduz da morte à vida, tornou-se caminho de paternidade porque Deus, viu a miséria do povo e na sua misericórdia escolheu-o como seu filho primogénito (Ex 4, 22-23) e conduz este povo como um pai conduz um filho (Dt 1, 31).
Deus é um pai benevolente, cheio de bondade, rico de misericórdia e de amor, fiel à sua aliança com Israel. Nada impede Deus de ser misericórdia, nem sequer a infidelidade. Ele resiste a todas as manifestações do mal com a misericórdia que é o modo de Deus responder ao homem pecador, ao Israel infiel, incapaz de permanecer e cumprir a aliança.
Só pela misericórdia o homem pecador, merecedor da morte, alcança de novo a vida porque Deus não é um Deus de mortos mas de vivos, ele não quer a morte do pecador, mas que se converta e viva (cf. Ez 18,23; 33,11).
Na sua misericórdia Deus não olha apenas para o pecador, porque a misericórdia não é apenas um conceito espiritual. Deus vê o pobre. Do mesmo modo que viu Israel caído no Egito e o libertou dando-lhe uma terra de liberdade, olha, agora, para os pobres e liberta-os. Ele é o protector dos oprimidos, dos órfãos, das viúvas e dos estrangeiros (Ex 22, 20-26). O Senhor “levanta do pó o mendigo e tira da imundície o pobre, para o sentar com os príncipes e ocupar um trono de glória” (1Sm 2, 8).
Os Salmos manifestam a misericórdia de Deus para com os mais pobres e a confiança que estes depositam nele, enquanto os profetas se apresentam como arautos desta preocupação e predilecção de Deus pelos mais fragilizados e expostos às injustiças sociais. Os pobres, os pequenos, os desprotegidos têm um lugar preferencial no coração de Deus (cf. Sl 145,8; 86, 15; Is 1,11-17; Ez 18, 7-9; Os 4,1-3; Miq 6,6-8). Estes não podem confiar-se às mãos dos homens, não podem esperar justiça a não ser de Deus. Por isso ressoa a mensagem dos profetas: “eu quero misericórdia e não sacrifícios” (Os 6,6)
A misericórdia divina é uma mensagem que atravessa todo o Antigo Testamento como uma notícia reveladora de Deus, que enche o homem de alegria: “Vós, que temeis o Senhor, confiai nele; sua misericórdia será fonte de alegria” (Sir 2, 9).
Enquandramento Bíblico - Antigo Testamento
