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Práxis Pastoral


 

Os Gestos da Igreja, reflexos da misericórdia divina

Nascida do amor misericordioso de Deus, a Igreja reconhece que a sua pastoral tem que assentar na misericórdia como única forma de se renovar e de renovar as suas estruturas para corresponder à missão que lhe foi confiada. Por esta razão, ao desejar um ano centrado na misericórdia e na alegria, queremos purificar o olhar pastoral para ver mais de perto as periferias onde se situam os mais esquecidos e levar até aí um sinal do amor libertador de Deus. Neste contexto, a recente Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, do Papa Francisco, serve-nos de apoio para concretizar as nossas intenções pastorais. Não apenas pelo seu conteúdo mas sobretudo pela novidade das expressões e dos horizontes que abre à acção pastoral da Igreja.

Efetivamente, o Santo Padre propõe-nos a edificação da Igreja sobre a alegria nascida da misericórdia. De facto as suas primeiras palavras referem claramente que a alegria brota do encontro com Jesus que salva o homem do isolamento em que é tentado a fechar-se e onde não há lugar para os pobres e consequentemente “já não se goza da doce alegria do amor, nem fervilha o entusiasmo de fazer o bem” (EG 2).

A realização dos anseios mais profundos do homem não se concretiza no isolamento nem no comodismo de uma vida egoísta, mas fortalece-se na doação e amadurece à medida que é entregue para dar vida a outros (EG 10). Do mesmo modo, a Igreja realiza-se na medida em que, seguindo os passos do seu fundador avançar pela história com palavras e gestos de libertação e proximidade com os últimos, os excluídos, os pobres, os carentes de salvação.

Sendo a maior de todas as virtudes, a misericórdia, pertence à própria natureza da Igreja. Pelo que, a única forma de existir como Igreja é a de viver em total disponibilidade para “lavar os pés” a todos, à imagem do Mestre. A Igreja de Jesus Cristo “sabe ir à frente, sabe tomar a iniciativa sem medo, ir ao encontro, procurar os afastados e chegar às encruzilhadas dos caminhos para convidar os excluídos. Vive um desejo inexaurível de oferecer misericórdia, fruto de ter experimentado a misericórdia infinita do Pai”, diz o Papa Francisco e acrescenta que “com obras e gestos entra na vida diária dos outros, encurta distâncias, abaixa-se e assume vida humana, tocando a carne sofredora de Cristo no povo” (EG 24).

A proximidade é a primeira qualidade da misericórdia. Em Cristo, Deus tornou-se solidário da humanidade e vai ao encontro do homem ferido pelo pecado e pela exclusão. A Igreja, diante do testemunho da misericórdia divina, aprende a necessidade desta proximidade, como fidelidade ao mandato do Senhor, “como eu fiz… fazei vós também” (Cf. Jo 13,15).

Não há dúvida que esta proximidade desperta a necessidade de uma “adesão de coração” bem como uma “nova ousadia” que implicam uma “saída para as periferias”, “numa verdadeira experiência de fraternidade, numa caravana solidária, numa peregrinação sagrada. Assim, as maiores possibilidades de comunicação traduzir-se-ão em novas oportunidades de encontro e solidariedade entre todos”. (EG 87).

A Igreja, identificando-se com Cristo, percebe, em “toda a vida de Jesus, a sua forma de tratar os pobres, os seus gestos, a sua coerência, a sua generosidade simples e quotidiana e, finalmente, a sua entrega” (EG 265) e “convence-se de que é isso o que os outros precisam, embora não o saibam” (EG 265)

Perante o momento presente, que nos revela a tentação de mantermos uma prudente distância em relação às situações dramáticas e socialmente marginalizadas, afirma o Papa: “Jesus quer que toquemos a miséria humana, que toquemos a carne dos outros. Espera que renunciemos a procurar aqueles abrigos pessoais ou comunitários que permitem manter-nos à distância do nó do drama humano, a fim de aceitarmos verdadeiramente entrar em contacto com a vida concreta dos outros e conhecermos a força da ternura” (EG 270).

A alegria oferecida por Cristo aos seus discípulos é aquela que brota de um coração misericordioso, que é capaz de amar antes de ser amado e de se entregar totalmente por quem não pode retribuir, à semelhança de Deus, que nos amou primeiro.

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