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1. Jubileu da Misericórdia

No dia 13 de Março, o Papa Francisco anunciou, na Basílica de São Pedro, a celebração de um Ano Santo, um Jubileu extraordinário, centrado na Misericórdia de Deus. Este ano santo terá início no dia 8 de dezembro deste ano, na Solenidade da Imaculada Conceição e concluir-se-á a 20 de novembro de 2016, com a Solenidade de Jesus Cristo, Rei do Universo.

A abertura do próximo Jubileu coincidirá com o cinquentenário do encerramento do Concílio Ecuménico Vaticano II, que aconteceu em 1965 e reveste este ano santo de um significado especial, encorajando a Igreja a prosseguir a obra iniciada no Concílio. […]

Diz-nos o Papa Francisco: “Estamos a viver o tempo da misericórdia. Este é o tempo da misericórdia. Existe tanta necessidade de misericórdia, e é importante que os fiéis leigos a vivam e a levem aos diferentes ambientes sociais. Adiante!"

Animados pela palavra do nosso Sumo Pontífice, Papa Francisco, […] procuraremos, também neste ano pastoral de 2015-2016, dar um novo entusiasmo e renovar a nossa acção pastoral com base no tema: “Sede Misericordiosos como o Pai” (Lc 6,36). 

 

2. A Misericórdia

O tema da misericórdia é muito apreciado pelo Papa Francisco, tendo, por isso, escolhido para seu lema uma citação das homílias de São Beda, o Venerável: “miserando atque eligendo”, que é uma verdadeira homenagem à misericórdia divina. No angelus de 17 de Março de 2013, diz que a palavra misericórdia muda tudo. E continua: “É o melhor que podemos escutar: muda o mundo. Um pouco de misericórdia faz o mundo menos frio e mais justo. Precisamos compreender bem esta misericórdia de Deus, este Pai misericordioso que tem tanta paciência”. 

 

2.1. A Misericórdia no Antigo Testamento

[…] Os livros do Antigo Testamento falam da misericórdia como uma profunda atitude de bondade. Esta bondade, quando entre duas pessoas, não é mera benevolência, mas sublinha a fidelidade[1]. Contudo, não podemos reduzir a misericórdia a um simples instinto de bondade. É bondade, mas consciente, livre e voluntariamente assumida, como resposta a uma exigência interior, a da fidelidade a si mesmo.

Para além de um sentimento de bondade, no Antigo Testamento encontramos também a misericórdia divina ligada ao amor de mãe. A misericórdia é entendida como amor totalmente gratuito, que não é fruto dum merecimento, mas que é uma exigência de coração, porque brota de um vínculo profundo e originário. Indica o estado de quem se sente uma só coisa com outro numa comunhão perfeita, como a de sangue e coração que une um pai ou uma mãe com o seu próprio filho, ou os irmãos e os esposos entre eles (cf. Sal 103,13).

Desta forma, quando aplicamos a Deus o adjectivo misericordioso, queremos dizer que Deus se debruça sobre nós, com amor, bondade e ternura, por fidelidade a Ele mesmo e à aliança que realizou com os homens[2].

 

2.2. Pai Misericordioso em Lc 15,11-32

A misericórdia de Deus, presente e revelada no Antigo Testamento, tem continuidade no Novo Testamento, mormente em Lc 15,11-32. Jesus apresenta um pai que, pelos seus gestos e palavras, aponta para a misericórdia de Deus. A parábola do pai pródigo “exprime de maneira simples mas profunda (…) a mais concreta expressão da obra do amor e da presença da misericórdia no mundo humano”[3].

         Nela, Jesus, através daquele pai “louco” de amor pelos seus filhos, revela a natureza mais íntima de Deus, seu Pai. Mostra-O terno, carinhoso, pronto a acolher e perdoar sempre, sem impor condições. A única coisa que se impõe é o seu amor.

         Desta forma, a parábola faz emergir Jesus como o rosto misericordioso de Deus Pai, como lugar da experiência de Deus enquanto Pai. Assim, todo o capítulo 15 de Lucas é um “festival de misericórdia”, promovido pelo pai, pródigo em amor. […]

Jesus apresenta um pai que escandaliza a mentalidade farisaica. A omnipotência deste pai brota da misericórdia, do dar-se por amor aos outros. Podemos então dizer como São Tomás de Aquino: “é próprio de Deus usar de misericórdia; e nisto manifesta-se especialmente a sua omnipotência”[4].

Em suma, encontramos já nos textos proféticos uma relação entre a misericórdia e o amor da parte de Deus. Contudo, foi no NT, com Jesus, exegeta de Deus e intérprete de Deus, que esta relação atingiu a sua plenitude.

 

3. A Igreja como sacramento da Misericórdia

O mandamento da misericórdia está enraizado no ser da Igreja, Corpo de Cristo. A Igreja não é uma espécie de agência de serviços sociais e de caridade. Enquanto Corpo de Cristo, a Igreja é sacramento da permanente e eficaz presença de Cristo no mundo e, por isso, sacramento da misericórdia. Através da Palavra e do Sacramento, mas também a partir de toda a sua vida, a Igreja tem que tornar presente na história e na vida do cristão o evangelho da misericórdia, que é o próprio Jesus. Mas, ela própria é objecto da misericórdia divina. Como Corpo de Cristo foi salva por Jesus Cristo, mas no seu seio alberga pecadores e, por isso, deve ser purificada uma e outra vez, a fim de existir pura e santa (Cf. Ef 5,23-26).

Devemos, por isso, perguntar, se a Igreja está à altura do que deve ser e se as suas acções testemunham a misericórdia divina.

Seguindo o exemplo de Jesus, não devemos tratar com frivolidade, mas com misericórdia os defeitos e erros da Igreja. Temos de ter claro que uma Igreja sem caridade e sem misericórdia não é a Igreja de Jesus Cristo. Há um vínculo intrínseco entre misericórdia e Igreja. […]

Santo Agostinho não entende o amor apenas de um ponto de vista individual como obra de um cristão, mas também de um ponto de vista eclesial como unidade da Igreja no amor.  Podemos concluir que a misericórdia não é uma missão privada dos cristãos. Também não é uma oferta de carácter social. Possui uma dimensão especificamente eclesial, pois pertence de modo essencial à comunidade da Igreja e à unidade que nela se vive. A Igreja tem, assim, na misericórdia a chave do Evangelho e de toda a vida cristã. Por isso, deve fazer o possível por viver o amor eclesial e testemunhá-lo nas obras de misericórdia corporais e espirituais.

Desta forma, a misericórdia tem consequência não só para a vida dos cristãos, mas também tem consequências para a doutrina, para a vida e para a missão da Igreja. A grave critica que se faz à Igreja é que tantas vezes não pratica o que anuncia aos outros. Por isso, o Papa João XXIII dizia, aquando da inauguração do Concílio Vaticano II, que hoje a Igreja deve empregar, sobretudo, as armas da misericórdia[5].

É preciso que a Igreja do nosso tempo tome consciência da necessidade de dar testemunho da misericórdia de Deus em toda a sua missão, em continuidade com a tradição da Antiga e da Nova Aliança e, sobretudo, no seguimento do próprio Cristo e dos seus Apóstolos.

A Igreja deve dar testemunho da misericórdia de Deus revelada em Cristo, ao longo de toda a sua missão de Messias, professando-a em primeiro lugar como verdade salvífica de fé necessária para a vida em harmonia com a fé; depois, procurando introduzi-la e encarná-la na vida tanto dos fiéis, como, na medida do possível, na de todos os homens de boa vontade. Finalmente professando a misericórdia e permanecendo-lhe sempre fiel, a Igreja tem o direito e o dever de apelar para a misericórdia de Deus, implorando-a perante todas as formas do mal físico ou moral, diante de todas as ameaças que tornam carregado o horizonte da humanidade contemporânea[6].

 

4. A Igreja professa e proclama a misericórdia de Deus

A Igreja vive vida autêntica quando professa e proclama a misericórdia, o mais admirável atributo do Criador e do Redentor, e quando aproxima os homens das fontes da misericórdia do Salvador, das quais ela é depositária e dispensadora. Neste contexto, assumem grande significado a meditação constante da Palavra de Deus e, sobretudo, a participação consciente e reflectida na Eucaristia e no sacramento da Penitência ou Reconciliação.

A Eucaristia […] celebrada em memória d'Aquele que na sua missão messiânica nos revelou o Pai por meio da Palavra e da Cruz, atesta o inexaurível amor, em força do qual Ele deseja sempre unir-se e como que tornar-se uma só coisa connosco, vindo ao encontro de todos os corações humanos.

O sacramento da Penitência ou Reconciliação aplana o caminho a cada um dos homens, mesmo quando sobrecarregados com graves culpas. Neste Sacramento todos os homens podem experimentar de modo singular a misericórdia, isto é, aquele amor que é mais forte do que o pecado. […]

A misericórdia em si mesma, como perfeição de Deus infinito é também infinita. É por isso mesmo que a Igreja professa e proclama a conversão. A conversão a Deus consiste sempre na descoberta da sua misericórdia, isto é, do amor que é paciente e benigno como o é o Criador e Pai; amor ao qual Deus é fiel até às últimas consequências na história da Aliança com o homem, até à cruz, à morte e à ressurreição do seu Filho. A conversão a Deus é sempre fruto do retorno para junto deste Pai, «rico em misericórdia».

O autêntico conhecimento do Deus da misericórdia, Deus do amor benigno, é a fonte constante e inexaurível de conversão, não somente como momentâneo acto interior, mas também como disposição permanente, como estado de espírito. Aqueles que assim chegam ao conhecimento de Deus, aqueles que assim O «veem», não podem viver de outro modo que não seja convertendo-se a Ele continuamente[7].

A primeira tarefa da igreja consiste em anunciar a mensagem do Deus misericordioso. Perante a situação actual, em que muitos vivem como se Deus não existisse, a Igreja não deve anunciar um deus vago, juiz, castigador, mas um Deus que é um Pai compassivo e Pai de todo o consolo, um Pai rico em misericórdia. Só chegaremos aos corações das pessoas, se as ajudarmos a descobrir, no meio das suas necessidades e sofrimentos, um Deus misericordioso, que sabe aquilo que nós necessitamos. Anunciar que aquele Pai da parábola que sai ao encontro do filho, o abraço, beija e salva, está próximo de cada um e a cada um quer entregar a sua graça e misericórdia, restituindo-lhes os seus direitos filiais.

Quando a Igreja anuncia e dá testemunho da misericórdia divina, não só anuncia a mais profunda verdade sobre Deus, como também anuncia a mais profunda verdade sobre o homem. Pois, a verdade mais profunda sobre Deus é que Deus é o amor que se doa a si mesmo e está sempre disposto a perdoar. A verdade mais profunda sobre o homem é que Deus, no seu amor, nos criou e ao afastarmo-nos dele, não nos deu como perdidos, mas restabeleceu-nos a nossa dignidade. Deus desceu até nós de modo a atrair-nos ao seu coração e elevar-nos para ele.

 

5. A Reconciliação, sacramento da misericórdia

Se em Jesus Cristo, a Palavra se fez carne, assim também a palavra da Igreja adquire forma concreta nos sacramentos. Todos os sacramentos são sacramentos da misericórdia de Deus. Desta forma, o sacramento da penitência ou reconciliação é um sacramento da misericórdia de Deus, que reiteradamente nos perdoa e reiteradamente nos concede outra oportunidade e possibilidade de um novo começo. “Este amor é capaz de debruçar-se sobre todos os filhos pródigos, sobre qualquer miséria humana e, especialmente, sobre toda miséria moral, sobre o pecado. Quando isto acontece, aquele que é objecto da misericórdia não se sente humilhado, mas como que reencontrado e «revalorizado». O pai manifesta-lhe alegria, antes de mais por ele ter sido «reencontrado» e, por ter «voltado à vida». Esta alegria indica um bem que não foi destruído: o filho, embora pródigo, não deixa de ser realmente filho de seu pai. Indica ainda um bem reencontrado: no caso do filho pródigo, o regresso à verdade sobre si próprio”[8] […]

As razões que conduzem a esta crise do sacramento da penitência são várias: muitos não experimentam a penitência como uma libertação. Muitas vezes, é entendido como uma obrigação e como meio de controlo. Para alguns, o sacramento da penitência está associado a experiências de vida traumáticas; falta de consciência de pecado, etc...

O sacramento da penitência é o verdadeiro refúgio dos pecadores, algo que todos nós somos. Ali, experimentamos a compaixão de Deus de uma forma imediata e directa. É evidente, que para ninguém é fácil confessar humildemente os seus pecados, mas todo aquele que o faz conhece e experimenta uma libertação interior, uma paz profunda e uma alegria transbordante.

“O sacramento da Penitência ou Reconciliação aplana o caminho a cada um dos homens, mesmo quando sobrecarregados com graves culpas. Neste sacramento todos os homens podem experimentar de modo singular a misericórdia, isto é, aquele amor que é mais forte que o pecado”[9].

Este sacramento é uma autêntica obra de misericórdia tanto para o indivíduo como para a comunidade eclesial. É necessário redescobrir o valor e importância deste sacramento para a vida cristã, para nos convertermos numa Igreja mais misericordiosa.

 

6. Tradição das Obras de Misericórdia

Sede misericordiosos, como o vosso Pai é misericordioso (Lc 6,36). Mais do que uma ordem, estas palavras de Jesus são a revelação de uma possibilidade: elas atestam a possibilidade de o homem participar da misericórdia de Deus, ou seja, de dar vida, de mostrar ternura e amor, de perdoar, de co-sofrer com quem sofre, de sentir unicidade do outro e de lhe estar próximo, de suportar o outro e de ter paciência com a sua lentidão e as suas incapacidades. […]

O Judaísmo que, desde o século I, estava familiarizado com as obras de misericórdia e que, por vezes, lhe chamava “belos mandamentos”, afirmará que o mundo apoia-se em três fundamentos: a Tora, o culto e as obras de misericórdia.

A tradição judaica afirma que as obras de misericórdia abraçam um âmbito muito vasto do que a simples esmola e são muito maiores do que ela: a esmola faz-se apenas com dinheiro, as obras de misericórdia com dinheiro e com a pessoa inteira; a esmola é dada apenas ao pobre, as obras de caridade tanto podem ser feitas aos pobres como aos ricos; a esmola é dada apenas aos vivos, as obras de misericórdia aplicam-se tanto aos vivos como aos mortos.[10]

Em Mateus, temos uma lista de seis gestos de caridade que, se forem feitos a um pobre, a um pequeno, são feitos ao próprio Jesus: “Tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber, era peregrino e recolhestes-me, estava nu e destes-me de vestir, adoeci e visitastes-me, estive na prisão e fostes ter comigo” (Mt 25, 35-36). […]

A enumeração das obras de misericórdia não é feita ao acaso, mas corresponde a uma divisão que contempla quatro classes de pobreza.

  • Pobreza física ou económica: é a mais simples de entender. Não ter um tecto sobre a cabeça, nem ter nada com que saciar a fome e a sede, carecer de roupa.

  • Pobreza cultural: falta de oportunidades de formação e, como tal, carência de oportunidades de futuro e exclusão da vida social e cultural.

  • Pobreza relacional: esta considera a pessoa como ser social. Solidão, morte de um familiar ou amigo, dificuldades de comunicação.

  • Pobreza espiritual: desorientação, vazio interior, desespero, confusão moral e espiritual. […]

Assim, as obras de misericórdia nascem da experiência do amor de Deus e cumprem o mandamento do amor ao próximo. Não são meras acções a fazer, a executar, mas necessitam de um empenhamento pessoal que se verifica no modo de me relacionar com o próximo[11].

 

7. A Mãe de Misericórdia

Escolhida para ser a Mãe do Filho de Deus, Maria foi preparada desde sempre, pelo amor do Pai, para ser Arca da Aliança entre Deus e os homens. Guardou, no seu coração, a misericórdia divina em perfeita sintonia com o seu Filho Jesus. O seu cântico de louvor, no limiar da casa de Isabel, foi dedicado à misericórdia que se estende «de geração em geração» (Lc 1, 50). Também nós estávamos presentes naquelas palavras proféticas da Virgem Maria. Isto servir-nos-á de conforto e apoio no momento de atravessarmos a Porta Santa para experimentar os frutos da misericórdia divina[12]. […]

Maria é aquela que conhece mais profundamente o mistério da misericórdia divina. Conhece o seu preço e sabe quanto é elevado. Na sua vida, tudo foi plasmado pela presença da misericórdia feita carne. A Mãe do Crucificado Ressuscitado entrou no santuário da misericórdia divina, porque participou intimamente no mistério do seu amor. Neste sentido chamamos-lhe Mãe da misericórdia, Nossa Senhora da Misericórdia, ou Mãe da divina misericórdia. Em cada um destes títulos há um profundo significado teológico, porque exprimem a particular preparação da sua alma e de toda a sua pessoa, para torná-la capaz de descobrir, primeiro, através dos complexos acontecimentos de Israel e, depois, daqueles que dizem respeito a cada um dos homens e à humanidade inteira, a misericórdia da qual todos se tornam participantes, segundo o eterno desígnio da Santíssima Trindade, «de geração em geração»[13].

Em suma, Maria atesta que a misericórdia do Filho de Deus não conhece limites e alcança a todos, sem excluir ninguém. Dirijamos-Lhe a oração, antiga e sempre nova, da Salve Rainha, pedindo-Lhe que nunca se canse de volver para nós os seus olhos misericordiosos e nos faça dignos de contemplar o rosto da misericórdia, seu Filho Jesus[14].

 

8. Consequências Pastorais

[…] Na sua essência, a temática deste Ano Pastoral é idêntica ao que nos empenhamos a viver durante o Ano Pastoral transacto: a Misericórdia. Por esse motivo, não faz nenhum sentido abandonar ou esquecer o que se conseguiu edificar.

 

  • “A credibilidade da Igreja passa pela estrada do amor misericordioso e compassivo” (MV 10). “É tempo de regresso ao essencial, para cuidar das fraquezas e dificuldades dos nossos irmãos” (MV 10). Um importante desafio pastoral, quer pessoal quer comunitário, deverá, pois, passar pela escuta e acolhimento da Palavra e atitude misericordiosa do Pai, “misericórdia que se manifesta como a sua responsabilidade por nós” (MV 9). Assim, a escuta, oração, reflexão e celebração da Palavra, quer em pequenos grupos, lugar ideal da graça de realizar um caminho «juntos», quer até mesmo como compromisso pessoal, ajudarão a conhecer a profundidade e grandeza do amor de Deus. […]

  • A Igreja é chamada pelo Papa Francisco a realizar um caminho de proximidade que nos possibilite ser sinais, discípulos da Misericórdia que brota do Pai. Misericórdia traduzida em gestos concretos que dão atenção à solidão e ao sofrimento, à escuta e à partilha, à doença e à fome. […] Neste sentido, pode ser importante não deixar cair no esquecimento as propostas do ano pastoral anterior de criar, na medida das capacidades e possibilidades de cada comunidade, um Gabinete de Pastoral Social ou Observatório Social que possa ajudar a dar resposta aos vários problemas dos homens, quer humana quer espiritualmente.

  • Propomo-nos celebrar um ano de júbilo, de alegria, no qual a misericórdia assume a razão de ser dessa alegria e festa. Sabemos que essa misericórdia provém, na sua essência, do Senhor Deus, o qual, nas parábolas sobre a misericórdia do Evangelho (Lc 15), “é apresentado sempre cheio de alegria, sobretudo quando perdoa” (MV 9). É “nelas que encontramos o núcleo do Evangelho e da nossa fé, porque a misericórdia é apresentada como a força que tudo vence, enche o coração de amor e consola com o perdão” (MV 9).

  • Surge, pois, como evidente na manifestação e vivência da misericórdia a celebração do sacramento do perdão ou Sacramento da Penitência. […] O Santo Padre aponta de forma especial o tempo da Quaresma, “como tempo forte para celebrar e experimentar a misericórdia de Deus” (MV 17). Um passo em frente poderia e deveria ser o de criar momentos e tempos concretos e constantes para a sua celebração, estabelecendo dia e hora, e “colocando, desta forma, o sacramento da Reconciliação no centro” permitindo a cada pessoa no seu caminho deixar-se tocar sensivelmente pela grandeza da misericórdia (cf. MV 17). “Aquele que não ama não chegou a conhecer Deus, pois Deus é amor” (1 Jo 4,8).

  • A graça do Pai manifesta-se […] através de todos os sacramentos da Igreja. E não só a Penitência é sacramento de cura e de Misericórdia. No plano profundamente humano mas que deixa marcas intensas no plano psicológico e espiritual, os mais frágeis e sofridos de entre os homens encontramo-los nos que padecem de alguma chaga ou doença, nos feridos pela dor do corpo e do sofrimento. Também aqui a Igreja deve cuidar e curar. O sacramento da Unção apresenta-se, pois como resposta de vida e de cura que não devemos descurar mas usar para curar. Como seria importante valorizá-lo! Ajudar, primeiro que tudo, a comunidade, os doentes, os fiéis a percebê-lo para o quererem como força de vida do Pai. Celebrá-lo, em casa, no lar, no hospital, na comunidade cristã. Associá-lo à Reconciliação e, quando necessário, ao Viático, como vida e manifestação da ternura e misericórdias divina.

  • […] no ano anterior nos debruçámos sobre itinerários de Iniciação à vida Cristã e em concreto na Iniciação Cristã das crianças, onde o Baptismo, porta de entrada na vida da Igreja, toma lugar preponderante, como se torna importante e necessário apostar e cuidar de uma verdadeira e séria iniciação sem a qual a “reiniciação” não faz sentido. Julgamos imprescindível que cada comunidade cristã, na medida das suas possibilidades e capacidades, possa criar, apontar e proporcionar aos homens itinerários de fé e de compromisso na comunidade; itinerários que ajudem o homem a tornar-se cristão “à séria”; que ajudem a tomar consciência da graça e do amor de Deus Pai e de solicitude por um caminho comum, um caminho de filhos; itinerários que transpirem a força do perdão concedido no Baptismo, mas que exijam uma constante busca do ser à imagem e semelhança de Deus, não só querida no início, mas sobretudo de coerência de vida com o que se celebra; itinerários iniciáticos e mistagógicos onde o homem se sinta chamado a ser protagonista da sua história, do seu destino mas abrindo-se sempre ao infinito e à graça divina. São muitos os campos aqui a ter em conta: crianças pequeninas, seus pais e padrinhos e, provavelmente, os familiares mais próximos e cuidadores; as crianças em idade de catequese, quer as que já receberam o Baptismo e a Eucaristia, quer as que se preparam para receber ambos os sacramentos, e todos quantos se implicam no seu caminho, incluindo a comunidade; os adultos em todos os seus quadrantes e situações, quer para aprofundamento, quer para iniciação…

  • A família, lugar por excelência da experiência do amor e da misericórdia, poderá encontrar ao longo deste ano, a coragem e a alegria necessárias por forma a tornar-se, verdadeiramente, pequena Igreja doméstica, casa do amor. Parece este tempo ser oportuno para experimentar caminhos comuns de fé, ou ao menos de propostas sérias e concretas, que ajudem a família, pais e filhos, a encetar uma peregrinação marcada pela fé e pelo compromisso de aprofundamento e de testemunho da vida cristã. 

  • Este ano, o Santo Padre propõe que façamos experiência profunda da compaixão vivida por Cristo e que, ao mesmo tempo, sejamos dela portadores. Somos convidados, pois, a celebrar o júbilo da misericórdia, da alegria e do perdão. Para isso não parece suficiente participar de um momento ou outro de celebração ou de festa, ainda que num plano diocesano, mas como será importante cuidar, em cada comunidade, de preparar itinerários de peregrinação e de fé que ajudem a conhecer a força do perdão de Deus. Estes devem ajudar o crente a descobrir a beleza do caminho e a descobrir o caminho que conduz à porta da misericórdia, “onde quem entre poderá experimentar o amor de Deus que consola, perdoa e dá esperança” (MV 3).

  • Queremos também aproveitar este ano jubilar para iniciar um projecto que favoreça o despertar vocacional. O sacerdote, portador e dispensador da misericórdia do Senhor nosso Deus é essencial à vida da Igreja e ao dom do amor: “os confessores são chamados a ser sempre e por todo o lado, em cada situação e apesar de tudo, o sinal do primado da misericórdia” (MV 17). Podemos iniciar, ao longo deste ano, momentos fortes e seguros de oração com cariz vocacional; podemos, ainda, cuidar de anunciar, na catequese paroquial das nossas comunidades dirigidas às crianças, adolescentes e jovens ou mesmo na catequese de adultos a beleza deste compromisso de vida com Deus e com os homens. É de todo imperioso sensibilizar e despertar as consciências das nossas comunidades para esta forma de vida que nos coloca em relação intima e profunda com Pai das misericórdias e nos faz portadores, ainda que em vasos de barro, dos dons da vida de Deus.

 

 

[1] Cf. JOÃO PAULO II – Dives in Misericordia, nota n.º 52.

 

[2] Cf. M. DIAS – Da Misericórdia de Deus à Misericórdia dos Homens, p. 9.

 

[3] JOÃO PAULO II – Dives in Misericordia, n.º 6.

 

[4] T. AQUINO, Suma Teológica II, II, q. 30, a4c. Citado por Comissão Teológico-Histórica do Grande Jubileu do ano 2000 – Deus Pai de misericórdia, p. 44.

 

[5] W. KASPER – La Misericordia, clave del evangelio y de la vida Cristiana, pp. 153-155.

 

[6] JOÃO PAULO II – Dives in Misericordia, n.º 12.

 

[7] JOÃO PAULO II – Dives in Misericordia, n.º 13.

 

[8] JOÃO PAULO II – Dives in Misericordia, n.º 6.

 

[9] JOÃO PAULO II – Dives in Misericordia, n.º 13.

 

[10] L. GOLDSCHMIDT – Der babilonische Talmud III, Konigstein, Judischer Verlag, p. 392.

 

[11] L. MANICARDI – A caridade dá que fazer, pp. 61-75.

 

[12] PAPA FRANCISCO – Misericordiae Vultus , 24.

 

[13] JOÃO PAULO II – Dives in Misericordia, n.º 9.

 

[14] PAPA FRANCISCO – Misericordiae Vultus , 24.


 
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